O mundo é questo de referência. Ok, tudo bem. Essa é uma das poucas verdades incontestáveis. Mas ento por que minhas referências têm que passar pelas referências de outras pessoas? Isso também é uma questo de referência? Desde criana escuto comentários indutivos, comparativos e minimistas. Eles pouco compreendiam a complexidade e a simplicidade de ser uma criana.
Sabe aquelas frases prontas que acompanham todas as idades do ser humano: ele ainda mama com oito meses? Ainda no anda com um ano e dois meses? No fala ‘me’, esse menino tá um pouco preguioso, no acha? Nossa, ele tá comendo muito para uma criana de nove anos? Parece desnutrido, precisa comer para ser um adulto forte! E assim vai até chegar à temida escolha da faculdade, à responsabilidade social do primeiro emprego, ao mal-estar da idade crítica do casamento, à data limite de ter filhos…
Muitas dessas indagaes so evocadas sem pretenses, só pelo puro gostinho do saber sem maldade ou para compor uma conversa já sem muito sucesso. O problema é a repetio. Quantas vezes vo me perguntar quando virá o baby? Quando finalmente vou engravidar e dar netos e sobrinhos para meus familiares? A minha resposta, por enquanto, é a mesma: depois do cachorro.
- Ah, e você vai comprar ou ganhar um cachorro?
- No, sem planos para isso…
(Abri um parênteses: uma professora de Sociologia comentava que o útero da mulher é assunto do Estado e da Igreja – a mulher é a que menos tem poder sobre ele)
(Voltando)
Juro que no é a pergunta ou a pessoa que a evoca que me deixa um pouco, digamos, reflexiva. Fico pensando até que ponto essas verdades incontestáveis, que nos so jogadas em forma de interrogao (quanta psicologia!), interferem na deciso final. No falo do típico fenmeno maria-vai-com-as-outras, mas da percepo de estar na hora de tomar as atitudes necessárias, de efetivamente responder as questes que me so jogadas.
Essa presso social intimista e intrínseca de nós e para nós faz a gente andar quase no mesmo compasso. Também fao perguntas bobas, sem querer e por querer. Ajudo outras pessoas a se moverem quando na verdade queriam ficar inertes. Isso pode ser um bem para a humanidade, mas no para o humano. Quem diria o Bartleby, o escrivo incmodo e contemplativo de Herman Melville, que morre de fome por preferir no comer.
Ainda assim, o cachorro no virá…
Sobre Luciana de Aguiar
Luciana de Aguiar é formada em Jornalismo e atua na comunicao corporativa. O elo com a literatura aconteceu pela leitura despretensiosa, mas intensa, ainda na infncia. Os primeiros rabiscos vieram na adolescência e logo influenciaram a escolha profissional. Para ela, o mundo fantástico dos escritores Julio Cortázar, Italo Calvino, Jorge Luis Borges e Gabriel Garcia Marquéz seriam os perfeitos para habitar.
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